Pacaraima: A cidade brasileira na fronteira que lida com o impacto da crise venezuelana e a chegada de milhares de migrantes
A cidade de Pacaraima, em Roraima, principal ponto de entrada de migrantes venezuelanos no Brasil, enfrenta profundos desafios socioeconômicos devido ao fluxo migratório massivo desde 2015. A matéria detalha a sobrecarga na infraestrutura e a adaptação local, mencionando a Operação Acolhida e a interiorização de refugiados para estados como o Amazonas. O texto também destaca a inserção econômica dos migrantes, evidenciada pelo alto uso de PIX, e as implicações políticas recentes no país vizinho.
Tucupi

Destaque
Pacaraima, município de Roraima que compartilha a fronteira terrestre com a Venezuela, continua a ser o epicentro da crise humanitária que gera um intenso fluxo migratório para o Brasil. Desde 2015, esta pequena cidade, com pouco mais de 19 mil habitantes, conforme o Censo de 2022, recebeu a entrada de mais de 1,1 milhão de venezuelanos, tornando-se o primeiro ponto nacional a sentir os efeitos diretos da desestabilização política, econômica e social do país vizinho. A dinâmica local, antes marcada pela circulação natural entre as cidades gêmeas, foi radicalmente transformada, exigindo uma adaptação estrutural acelerada. Dados recentes, como os do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), indicam que apenas em 2025, mais de 96 mil novos migrantes foram registrados na cidade, com picos superiores a 11 mil em um único mês, como em outubro. Esta situação impõe desafios crônicos de infraestrutura, saúde e segurança, reflexos que inevitavelmente se propagam para a capital Boa Vista e, subsequentemente, para o restante da Região Norte, incluindo o Amazonas e Manaus, que servem como destinos de interiorização para muitos desses indivíduos.
A intensa presença migratória gerou profundas transformações na economia e na rotina de Pacaraima. Estruturalmente limitada, a cidade presenciou o crescimento da presença de venezuelanos em espaços públicos e no comércio, muitos chegando exaustos, em busca de subsistência básica. A resposta institucional veio com a criação da Operação Acolhida, coordenada pelo Exército Brasileiro, focada em triagem, documentação e, crucialmente, na interiorização de migrantes para outros estados, um mecanismo fundamental que alivia a pressão direta sobre Roraima, mas que transfere a logística e os custos sociais para cidades como Manaus. Essa rede de apoio e a convivência forçada também moldaram o tecido social, gerando tensões históricas, como os confrontos registrados em 2018, que puseram Pacaraima no mapa nacional como símbolo da complexidade fronteiriça. Apesar dos esforços de acolhimento, muitos migrantes vivem fora das estruturas formais, integrando-se informalmente ao mercado de trabalho local, desde a manutenção até o comércio.
O impacto econômico, embora doloroso em termos de pressão sobre os serviços públicos, também demonstrou uma notável capacidade de adaptação local, evidenciada por números surpreendentes no uso de meios de pagamento digitais. Em Pacaraima, a taxa de adesão ao PIX, ferramenta criada pelo Banco Central brasileiro, atingiu um patamar extraordinário, com uma média mensal de 106 mil transações para 19 mil habitantes, segundo levantamento da FGV. Isso ilustra a inserção econômica dos recém-chegados, que agora são ouvidos nas ruas falando espanhol e trabalhando em diversos setores. Enquanto a cidade se adapta ao convívio diário com a diáspora, os recém-chegados expressam um misto de dor pela pátria deixada e incerteza quanto ao futuro, especialmente diante das recentes convulsões políticas em Caracas, como a captura de Nicolás Maduro. Para eles, a esperança reside na resolução diplomática, pois o povo, como atesta o migrante José González, é quem invariavelmente sofre as maiores consequências da instabilidade política.
Para as políticas públicas brasileiras, o fenômeno migratório exige uma coordenação interestadual robusta. A rota migratória não cessa, e a gestão da fronteira, que inclui o monitoramento de rotas ilegais conhecidas como 'trochas', é essencial para garantir a segurança nacional e o fluxo ordenado de ajuda humanitária, que por vezes precisa ser canalizada a partir de Boa Vista. A manutenção da Operação Acolhida e a articulação com governos estaduais e municipais do Amazonas e de outros estados vizinhos são vitais para gerenciar a distribuição e a integração desses milhares de indivíduos. A situação em Pacaraima é um termômetro constante da crise venezuelana e um desafio contínuo para a administração federal em termos de política migratória e direitos humanos. (Fonte: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/01/05/como-e-a-cidade-brasileira-que-recebe-milhares-de-venezuelanos-em-meio-a-crise-no-pais-vizinho.ghtml)
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