Estudo Revela Como El Niño Afeta a Pesca no Brasil Via Impactos na Amazônia

Um estudo publicado na Nature Reviews Earth & Environment detalha como o El Niño–Oscilação Sul (ENOS) afeta o ecossistema marinho no Oceano Atlântico, com impactos diretos na pesca em partes da América do Sul. Especificamente no Norte do Brasil, o El Niño está associado à redução das chuvas na Amazônia, o que diminui a pluma do rio Amazonas, responsável por levar nutrientes essenciais à costa do Norte e Nordeste, podendo prejudicar a pesca de certas espécies, embora beneficie outras como o camarão marrom.

Tucupi

Tucupi

Estudo Revela Como El Niño Afeta a Pesca no Brasil Via Impactos na Amazônia
camera_altFoto: com
Destaque
Pesquisadores de uma colaboração internacional, incluindo instituições brasileiras, acabam de lançar luz sobre a complexa relação entre o fenômeno climático El Niño–Oscilação Sul (ENOS) e os ecossistemas marinhos do Atlântico Sul, com implicações diretas para a economia pesqueira brasileira. O estudo, veiculado na conceituada revista *Nature Reviews Earth & Environment*, demonstra que as variações de aquecimento e resfriamento do Pacífico – conhecidas como El Niño e La Niña – não apresentam uma resposta única ou homogênea nas águas do Atlântico, mas sim um mosaico de efeitos regionais que demandam atenção específica. Cientificamente, o ENOS modula alterações críticas como regimes de chuva, temperaturas da superfície do mar, salinidade e, crucialmente, o volume de água doce descarregado por grandes sistemas fluviais. Estes fatores, por sua vez, controlam a disponibilidade de oxigênio e nutrientes, elementos que formam a base da cadeia alimentar marinha, afetando diretamente a biomassa de peixes e crustáceos explorados comercialmente em diversos litorais da América do Sul e África. Um dos achados mais pertinentes para o contexto nacional diz respeito à dinâmica climática que interliga a Amazônia ao oceano. O estudo aponta que, quando o El Niño atua pela via tropical – como ocorreu intensamente nos anos recentes –, ele está intrinsecamente ligado à diminuição acentuada do volume de chuvas sobre a região amazônica. Esta redução hídrica tem uma consequência direta no litoral do Norte e Nordeste do Brasil: a diminuição da pluma do Rio Amazonas. Conforme explica a professora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina e coautora da pesquisa, esta pluma fluvial atua como um verdadeiro transportador de nutrientes vitais que sustentam a produtividade pesqueira costeira nessas regiões. A redução desse aporte nutritivo pode, portanto, gerar um impacto negativo na captura de algumas espécies comerciais importantes para as comunidades ribeirinhas e litorâneas do Norte e Nordeste, alterando o balanço tradicional de estoques pesqueiros locais. Entretanto, a complexidade do fenômeno se manifesta na assimetria dos impactos. Enquanto a escassez de nutrientes pode afetar negativamente certas pescarias, o mesmo cenário de menor turbidez da água decorrente da menor vazão do rio favorece outras atividades, como a pesca do camarão marrom, que prospera em águas mais claras e com maior penetração de radiação solar. Em contraste, no Sul do país, o El Niño frequentemente se manifesta pela via extratropical, elevando o volume de chuvas, como visto em eventos recentes no Rio Grande do Sul. Este excedente de água doce e nutrientes despejado no mar tende a impulsionar a produtividade de outras espécies de interesse pesqueiro na região Sul. A pesquisa, financiada pela União Europeia, enfatiza que não se pode aplicar uma única regra para todo o Atlântico Sul, reforçando a necessidade de estratégias de manejo pesqueiro que sejam estritamente localizadas e adaptadas às características ambientais e sociais de cada ecossistema costeiro afetado, conforme noticiado pelo Jornal de Brasília (https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/mundo/el-nino-afeta-ecossistema-marinho-no-oceano-atlantico-diz-estudo/). Os cientistas responsáveis alertam que, diante de um cenário de mudanças climáticas que prometem intensificar e alterar a frequência dos eventos ENOS, é imperativo superar as lacunas de conhecimento identificadas, como a carência de séries históricas de dados pesqueiros consistentes e a limitação das observações remotas. O estudo propõe um roteiro claro para aprimorar os modelos preditivos, visando construir ferramentas quantitativas que consigam isolar o sinal do ENOS de outras fontes de variabilidade ambiental. Ronaldo Angelini, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e participante da investigação, salienta que essa integração de dados físicos, químicos e biológicos é fundamental para oferecer previsibilidade aos setores produtivos. Além disso, a comunidade científica internacional defende a coordenação global do monitoramento oceânico, com a padronização de protocolos e a integração de dados coletados por redes costeiras, garantindo que as respostas regionais, como as observadas no Amazonas e no litoral brasileiro, possam ser compreendidas e mitigadas com maior eficácia.

Comentários

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Você receberá um e-mail para confirmar seu comentário.

Carregando comentários...