Especialista aponta que China 'exagerou na dose' com salvaguarda restritiva à carne bovina do Brasil
Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, criticou a decisão da China de impor uma salvaguarda à carne bovina brasileira, reduzindo drasticamente as cotas de exportação para 1,1 milhão de toneladas em 2026, um volume bem abaixo das expectativas de 1,7 milhão. Jank considera a medida excessiva, prevendo possíveis distorções inflacionárias na China e um grande impacto no agronegócio brasileiro, já que a proteína representa uma fatia significativa das exportações para o país asiático. Ele sugere que o Brasil recorra à Organização Mundial do Comércio (OMC) e negocie o remanejamento de cotas não utilizadas por outros países.
Tucupi

Destaque
A recente imposição de uma medida de salvaguarda pela China sobre as importações de carne bovina brasileira desencadeou uma onda de preocupação e críticas entre especialistas do setor agropecuário nacional. Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, avaliou a decisão chinesa como excessiva, destacando que a medida estabelece uma cota restritiva de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil no ano de 2026. Este volume projetado é significativamente inferior às expectativas de exportação para o mesmo período, que poderiam facilmente alcançar até 1,7 milhão de toneladas. Adicionalmente, a China implementou uma tarifa de 55% sobre a alíquota original de 12%, elevando o custo total de importação para 67% para qualquer volume que ultrapasse o limite estabelecido. Segundo Jank, essa restrição imposta de forma tão abrupta não só pode inviabilizar uma parcela substancial das exportações brasileiras, mas também pode gerar efeitos colaterais no mercado interno chinês, notadamente um aumento da inflação. Isso ocorre porque a produção local chinesa carece da competitividade e da eficiência que a carne bovina brasileira oferece, sendo as importações cruciais para suprir cerca de 30% do consumo doméstico da proteína vermelha.
Jank enfatiza que, embora a China se apresente frequentemente como defensora das normas multilaterais de comércio, a implementação deste sistema de salvaguarda – com cotas específicas e tarifas adicionais que tornam o comércio fora do volume definido praticamente proibitivo – assemelha-se a práticas protecionistas mais típicas de outras economias, como os Estados Unidos. Este posicionamento contrasta com o discurso recente de fortalecimento da parceria estratégica bilateral. O especialista sublinha o impacto severo que esta política representa para o agronegócio do Brasil, visto que a China é o destino primordial da carne bovina nacional, constituindo um dos pilares econômicos das exportações brasileiras, ficando atrás apenas do complexo da soja em termos de valor. A discrepância entre o volume atualmente exportado e o limite draconiano imposto pela cota chinesa configura, na prática, um corte drástico que exige uma resposta governamental imediata e coordenada para prevenir prejuízos financeiros consideráveis ao setor produtivo.
Diante deste complexo cenário geopolítico e comercial, o coordenador do Insper Agro Global delineou caminhos estratégicos que o Brasil deve trilhar com urgência para reverter ou, no mínimo, mitigar os efeitos adversos causados pela nova política tarifária chinesa. A primeira e mais imediata frente de ação sugerida é a intensificação do diálogo diplomático e comercial com Pequim, visando a ampliação da cota imposta, sustentando o argumento de que o volume definido é desproporcional ao histórico consolidado de comércio bilateral. Em paralelo, torna-se imperativo focar na negociação e no remanejamento de cotas de importação que outros países exportadores importantes, como a Argentina e o Uruguai, não consigam efetivamente utilizar, redirecionando esses volumes não aproveitados para o Brasil. Além das negociações diretas, Jank apoia a avaliação rigorosa da legalidade da medida chinesa perante a Organização Mundial do Comércio (OMC), questionando se a criação desse sistema discricionário de cotas e tarifas atende aos princípios multilaterais que a própria China historicamente advoga em fóruns internacionais, mesmo diante do atual enfraquecimento da instituição.
Marcos Jank concluiu sua análise ressaltando que, apesar do consumo per capita de carne bovina na China ainda ser consideravelmente inferior ao brasileiro (aproximadamente 7 kg anuais versus 24 kg), o segmento de mercado que consome carne vermelha atende a uma parcela de maior poder aquisitivo, cuja demanda se mantém estável, mesmo com a possibilidade de substituição por proteínas como suínos ou aves. Consequentemente, a restrição drástica na oferta tem maior probabilidade de inflacionar os preços internos na China do que forçar uma migração em massa para outras fontes de proteína, impactando negativamente tanto o consumidor chinês quanto a balança comercial brasileira. Portanto, a atuação do governo brasileiro deve concentrar-se em demonstrar a injustiça intrínseca do corte imposto e a necessidade urgente de um realinhamento das cotas, lembrando a China do seu papel como parceiro estratégico fundamental para a economia do Brasil, conforme noticiado pelo Jornal de Brasília.
Comentários
Deixe seu comentário
Carregando comentários...
